• v. 10 n. 2 (2019)

    O presente número da Revista Mare Nostrum é composto majoritariamente por um dossiê sobre o trabalho no Mundo Antigo, explorando objetos de estudo variados e relacionados a diferentes povos e temporalidades do Mediterrâneo. O artigo que abre o dossiê, da autoria de Thomas Henrique de Toledo Stella, trata da 20ª Dinastia do Antigo Egito (c. 1.186-1.069 a.C.), aquela que testemunhou uma série de crises que acabaram por minar vários aspectos do poder centralizado no faraó, bem como o Estado que nele se baseava. Em “Convulsões Sociais no Antigo Egito: Os Trabalhadores da Necrópole Tebana no Final do Novo Reinado”, temos panorama detalhado das condições de trabalho dos construtores de túmulos reais e nobiliárquicas na região da antiga Tebas, bem como sua contextualização nas várias contradições internas à economia do Egito, ressaltadas nos séculos finais do Novo Reinado. O artigo procura argumentar que os trabalhadores da Necrópole Tebana, ao reivindicarem os pagamentos a eles devidos em um contexto de crise econômica, demonstram uma consciência clara das incongruências entre de seus próprios interesses econômicos e os do Estado egípcio. Isso lhes os teria permitido mobilizar-se como uma classe – fosse por meio da primeira greve registrada na história ou pela instalação de uma indústria de saques dos túmulos erigidos por eles mesmos – e, eventualmente, desafiar aspectos essenciais da autoridade faraônica.

    O segundo artigo do dossiê, intitulado “Slavery and Athens’ Economic Efflorescence: Mill Slavery as a Case Study” (Escravidão e a Eflorescência Econômica de Atenas: A Escravidão de Moinho como um Estudo de Caso) se insere na recente corrente bibliográfica que vê um crescimento econômico significativo na Grécia dos séculos VI a III a.C., esse guiado por um raciocínio econômico não tão engessado (mas sim apoiado) por instituições sociais. Aqui, Jason M. Porter trata, mais especificamente, da instituição da escravidão em Atenas durante os séculos V e IV a.C., isso pelo viés da Nova Economia Institucional. O intuito do artigo é destacar o papel desempenhado pela escravidão na “eflorescência econômica” ateniense, um fator frequentemente negligenciado ou mal conectado ao crescimento econômico grego por seus defensores.  Isso é feito por meio de um estudo de caso sobre a utilização de escravos em moinhos comerciais, prática que permitiu um acesso menos custoso a um insumo essencial à dieta ateniense – ainda que pelo preço do cativeiro, da exploração do trabalho forçado e extenuante de inúmeros escravos.

    O terceiro artigo do presente número, escrito por David M. Lewis, se mantém na temática da escravidão, mas dessa vez com o foco em outro fenômeno: a pirataria. Depois de uma reconstrução erudita das técnicas e das tecnologias disponíveis aos corsários do mar Egeu, o artigo “Piracy and Slave Trading in Action in Classical and Hellenistic Greece” (“Pirataria e Comércio de Escravos em Ação na Grécia Clássica e Helenística”) analisa a conexão da pirataria com o suprimento de escravos ao mercado de pessoas da Grécia Antiga. As discussões ali apresentadas mostram que a pirataria – tanto um trabalho especializado quanto um provedor de trabalho – era um fenômeno que permeava vários aspectos essenciais da economia antiga, desde os custos de transações internacionais até o suprimento de parte da demanda por força de trabalho (forçado) das pólis helênicas.

    O artigo seguinte, “O Escravismo Estoico de Columella: Hierarquia e Estímulo à Competição Escrava”, situa Sobre as Coisas do Campo de Columella em seu contexto social e intelectual, focando-se em um conjunto de prescrições que teriam como objetivo o controle dos escravos por meio da exortação destes à competição. A hierarquização, a divisão em trabalhos e grupos específicos são algumas das ferramentas analisadas por Helton Lourenço, que também nos mostra como o pensamento estoico influenciou o modo como Columella e alguns de seus contemporâneos viam e, portanto, tratavam seus escravos. Tal esforço nos fornece uma imagem menos bilateral da relação entre mestres e escravos, revelando níveis de cooptação pela concessão de (e disputa por) privilégios menores em um panorama que se costuma pensar ter sido composto apenas por rebelião declarada ou submissão absoluta.

    O quinto artigo do dossiê é da autoria de José Ernesto Moura Knust e tem como seu principal objeto de estudo o trabalho assalariado no Mediterrâneo romano. Levando em conta diferentes abordagens historiográficas tanto sobre o trabalho quanto como a natureza da própria economia romana, o autor analisa principalmente (mas não exclusivamente) os tratados romanos sobre agricultura para delimitar a extensão da atuação de trabalhadores empreitados nas uillae romanas e suas imadiações. Dessa forma, o artigo “Trabalho Rural Assalariado no Mundo Rural Romano (séculos II a.C. e I d.C.)” argumenta que as relações catalisadas pela busca e fornecimento de trabalho, também canalisadas por meios institucionais, agiam não só no plano econômico, mas também em outras esferas, essas ainda mais importantes quando olhamos para contextos anteriores ao desenvolvimento da economia de mercado.

    O dossiê é fechado pelo artigo “William L. Westermann entre o Antiquarianismo e a História Comparada da Escravidão: Uma Releitura de The Slave Systems of Greek and Roman Antiquity”, de Fábio Duarte Joly. Aqui, temos um resgate bem-vindo das contribuições de William Westermann ao estudo da escravidão antiga.  Sua obra, relida no contexto do University Seminar Movement, mostra como os debates transdisciplinares organziados na Universidade de Columbia influenciaram a cunhagem de conceitos-chave por Westermann e por um de seus colegas de departamento, Frank Tannenbaum. Nesse contexto, conceitos ainda importantes como “sistema escravista” e “sociedade escravista” vêm à luz, sendo posteriormente disseminadas por autores nem sempre amistosos às ideias de Westernmann – como o próprio Moses I. Finley. Temos em tal artigo, portanto, uma ferramenta essencial a qualquer estudioso da escravidão, não somente daquela em seus moldes antigos.

    Por fim, o volume é fechado pela resenha da obra de Sebastian Conrad (2016), What is Global History?, composta por Santiago Colombo Reghin. Tal contribuição representa uma introdução preciosa a uma abordagem que se torna cada vez mais popular entre historiadores – inclusive entre os interessados na Antiguidade e em como suas várias histórias locais podem ser articuladas a uma História Global mais abrangente.

  • v. 10 n. 1 (2019)

    O dossiê Vegetarianismo na Antiguidade abre com o artigo de Alexandra Kovacs, A History of Vegetarianism in Antiquity, que apresenta um panorama dos diversos estudos sobre o assunto desde o século XVIII. A autora argumenta que este foi por muito tempo um tema marginal no campo da história e aponta as muitas possibilidades interpretativas oferecidas por uma abordagem histórica do vegetarianismo, especialmente por conta do diálogo da história com a arqueologia. Kovacs também aponta que uma vez que o conceito de vegetarianismo varia de acordo com o tempo, a sociedade e atores em análise, o mais correto seria falar de “vegetarianismos”.

    O artigo de Alberto Bernabé, Vegetarianismo en la Grecia Antigua, desenvolve a ideia de que não há um único significado para o conceito de vegetarianismo. Assim, o autor argumenta que há uma tendência em se misturar aspectos de formas distintas de vegetarianismo, tanto entre autores antigos quanto modernos. Ele, então, discute algumas vertentes de vegetarianismo na Grécia antiga apontando as diferenças entre elas. Nesse processo, Bernabé coloca especial ênfase no uso político-ideológico da agricultura como força civilizadora associada ao mito de Deméter.

    Em Justice for Animals According to Plutarch, Damian Miszczyński argumenta que Plutarco, inspirado pelas tradições pitagóricas e órficas, por um lado, e pela tradição racionalista da Academia Platônica, por outro, criou uma teoria da justiça em relação aos animais. De acordo com essa teoria, a justiça deve ser empregada na relação interespécies, ou seja, a justiça não se restringe ao mundo dos homens, mas se aplica também na relação dos homens com os animais. Nesse sentido, Plutarco parece encorajar sua audiência a reduzir o consumo de carne, a evitar o abuso dos animais como ferramentas de trabalho e a não os maltratar.

    Já o artigo de Cintia Alfieri Gama-Rolland, Alimentação e Tabus Alimentares no Egito Antigo: Pode-se Tratar de Vegetarianismo?, analisa fontes textuais, arqueológicas e epigráficas no intuito de investigar se houve o que poderíamos chamar de vegetarianismo entre os antigos egípcios. Nesse sentido, Gama-Rolland contrapõe fontes textuais com evidências da arqueologia e epigrafia no que diz respeito ao consumo de produtos de origem animal e vegetal e discute a relação deles com tabus alimentares. Para a autora, os relatos textuais como os de Heródoto e Plutarco, que indicam a existência de tabus alimentares em relação ao consumo de carne, são tardios e parciais e não podem ser generalizados para toda a história do Egito, especialmente por serem consideravelmente desafiados pelas fontes arqueológicas e epigráficas. Assim, a autora argumenta que o único tabu alimentar recorrente na história do Egito Antigo era evitar a fome, tanto no mundo dos vivos quanto no dos mortos, e que, a julgar pela documentação disponível, não houve a prática deliberada de vegetarianismo na Antiguidade egípcia, mesmo que as camadas populares raramente tivessem acesso a alimentos de origem animal.

    Para além do dossiê, nós temos três artigos sobre temas variados. O primeiro artigo, Potes, Pratos e Contatos Culturais: Práticas Alimentares na Núbia durante o Reino Novo (c. 1.550-1.070 a.C.), da autoria de Rennan Lemos e Fábio Frizzo, faz uma crítica às leituras tradicionais sobre as interações entre egípcios e núbios no mundo antigo apontando o caráter colonialista e racista de tais interpretações, inspiradas anacronicamente nas relações entre europeus e africanos na contemporaneidade. Para tanto, os autores discutem a cerâmica relativa às práticas alimentares produzida na Núbia durante o período do Reino Novo (1.550-1.070 a.C.) à luz da teoria da consubstancialidade das relações de gênero, raça e classe, ressaltando seu potencial de resistência cultural em um contexto de dominação imperial. O segundo artigo, “És Tácito ou Plínio?” (Plin. Ep. 9.23.3.2): Considerações acerca da Aristocracia Senatorial do Período Nerva-Trajanino por João Victor Lanna de Freitas, mostra a dinâmica de inserção e atuação das aristocracias provinciais e municipais no centro do poder político romano através de um estudo da correspondência de Plínio, o Jovem, a Tácito. Já o artigo de Francisco de Assis Sabadini, A Tradição na Produção de Estatuetas Cicládicas (3.200-2.700 a.C.), analisa as estatuetas conhecidas como “tipo canônico” ou “braços cruzados” produzidas pela cultura Keros-Siros nas Cíclades.

    Por último, mas não menos importante, nós temos a resenha do livro Against the Grain: A Deep History of the Earliest States (2017) de James Scott por Uiran Gebara da Silva.

     

  • v. 9 n. 2 (2018)

    As contribuições do presente número da revista Mare Nostrum são dedicadas, principalmente, à discussão do caráter estatal (ou não) da política no Mundo Antigo, particularmente na Atenas democrática. Tal debate é conduzido por meio de uma tentativa de aproximação entre classicistas e historiadores brasileiros e argentinos: toma-se como ponto de partida o artigo de Diego Paiaro (Universidad Nacional de General Sarmiento/Universidad de Buenos Aires/CONICET), La Pólis, el Estado y los Ciudadanos de la Democracia Ateniense como Comunidad Indivisa, esse então é comentado por Priscila Gontijo Leite (Universidade Federal da Paraíba), Marcelo Campagno (Universidad de Buenos Aires/CONICET), César Sierra Martín (Universitat Autònoma de Barcelona), Marta Mega de Andrade (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Julián Gallego (Universidad de Buenos Aires/CONICET) e Norberto Luiz Guarinello (Universidade de São Paulo). O próprio Diego Paiaro fecha o debate com uma tréplica sobre os pontos levantados pelos comentários.

    A edição também conta com três resenhas. A primeira delas se refere à obra de Neville Morley, Classics: Why It Matters, feita por Juliana Bastos Marques (UNIRIO); a segunda ao livro mais recente de Robert Drews, Militarism and the Indo-Europeanizing of Europe, realizada por Renan Falcheti Peixoto (MAE-USP); e a terceira, responsável por fechar o número, é composta por Helton Lourenço (UFOP) e trata da obra de Grant A. Nelsestuen, Varro the Agronomist: Political Philosophy, Satire and Agriculture in the Late Republic.